A Menina do Coração Tagarela

Esse coração fala demais.

A Taverna das Ilustres Memórias - Final

Os dias foram passando, a neve já começa a derreter sobre o tempo frio, o sol morno não consegue alcançar o chão. O que estava sendo esperado não podia acontecer diante do caos que aquele vilarejo assombrava. Mesmo assim, toda a aurora romântica pairava sobre os semblantes de Ulrich e Amelia. As árvores, sombriamente, davam o contorno de como seria os próximos dias em Avalon, pelos seus galhos secos transformavam em tons diabólicos os seus movimentos ao tocar do vento. Ninguém espera por uma situação irreal, mas a vida deste jovem casal estava por finalizar.

Não sabia ao certo. Um confronto entre os reinos estava acontecendo. Um mensageiro do Rei chega a Avalon para convocar todos os cavaleiros que haviam sido dispensados para retornar para mais uma batalha em nome de Sua Alteza e em nome do lugar em que eles vivem. O nobre lorde vai até a Taberna onde se encontram a maioria deles. A convocação é feita. Ulrich recebe a notícia e espera amanhecer para contar a sua amada. Era noite e parecia que não queria acabar. Em sua choupana, no alto da colina, Ulrick reserva suas forças para anunciar a sua ida para a batalha sem imaginar qual será a reação de Amelia.

Finalmente amanhece. O sol nasce entre o frio daquele final de inverno em Avalon. Eis que Amelia bate a porta. Ulrich atentamente fala-lhe do acontecido. Não foi uma boa hora.

- Amelia, recebi um chamado e devo cumpri-lo, sei que estamos a pouco tempo juntos, mas quando voltar, não sei quanto tempo levará, nunca mais aceitarei tal oferta e conceberemos o nosso matrimônio.

Não gostando muito do que o jovem proferiu, a moça retruca.

- Eu não gosto nada disso, tenho maus pressentimentos, não quero que vá. Mas se é uma ordem do rei... Prometa-me que terá cuidado e que voltará para mim.

Com seus olhos rasos de lágrimas a bela moça não resistiu e deságua sua frustração nos braços do seu amado que acalenta sua dor. Ao mesmo tempo em que é uma oportunidade para estar cada vez mais junto.

A despedida e o Fim

O dia chegou. Amelia vai ao encontro de Ulrich para prestar os últimos cuidados e reforçar a promessa que o moço fez para ela. Os dois não aguentam a ansiedade de toda a atmosfera e se abraçam num longo e perfeito sentimento que os une. Toda despedida é trágica e sem precedentes. Este dia não era como os outros, o vento que tocava a face com um tecido de seda já não rasgava com tal sutileza, o tempo estava mais frio e os pássaros se recusavam a cantar. Talvez fosse um anúncio do que estava por acontecer.

Os meses foram se passando e a angústia aumentando. Três meses e nenhuma notícia. Já era verão aquele mês, estava tudo mais colorido e um dia lindo para fazer qualquer atividade matinal se não fosse por uma estranha situação. Apenas se ouvia um cavalgar, ao longe, afoito, como se estivesse com pressa. O cavaleiro chega até o vilarejo de Avalon. Desce do seu cavalo. Pergunta a cada um dos moradores se alguém conhece Amelia e poucos puderam dizer onde ela estava. Então o cavaleiro foi a Taberna saber se alguém a conhecia. Até que o informam.

Amelia estava na casa de Ulrich admirando a beleza do lugar quando uma presença interrompe sua manhã. Na ilusão de que fosse o seu amado, ela chama por ele.

- Ulrich, você voltou como prometeu, estava...

Assustada como se tivesse visto algum mal a sua frente, o nobre cavaleiro acalma a jovem moça e pede para que seja forte.

- Amelia, suponho.
- Sim, sou eu.
- Vim aqui, de muito longe, para te dar uma notícia.

Aflita e ansiosa, Amelia ouvi atentamente cada palavra daquele homem.

- Eu sinto muito Amelia, Ulrich não poderá cumprir a promessa que fez a você, estava voltando para este vilarejo quando houve uma emboscada e os cavaleiros do outro reino surpreendeu a tropa. Ninguém escapou! Conseguimos resgatá-lo vivo, mas não resistiu. Ele me pediu para entregar isso a você. Bom, tenho que ir, já completei a minha missão.
Amelia ouviu cada palavra, o seu coração foi se partindo a cada instante que Ulrich estava longe dela, seus olhos ficaram pesados e segurar as lágrimas foi inevitável. O sonho de um estar ao lado do outro não será cumprido. O par de anéis que seriam para os dois, já não tem o mesmo sentido. E o que o dia que poderia ser alegre tornou-se infeliz e cheio de lágrimas.

A Taverna das Ilustres Memórias - Parte IV

Passaram-se meses depois da volta do moço ao vilarejo e nada de tão emocionante acontecia para cortar toda tranquilidade que havia ali. Até que certo dia o sossego foi quebrado, ladrões estavam rondando a região na tentativa de roubar a Taverna. Era noite e os invasores chegaram ao lugar que desejavam furtar. Amelia e Ulrich estavam no momento. Acontece uma briga, e alguns viajantes tentam ajudar, assim como. Com toda a confusão o moço se machuca depois enfrentar um dos ladrões que, com sua espada, atinge o Ulrich no braço e o surpreende com um agressivo golpe pelas costas. Ele cai no chão desacordado. Amélia entra em desespero. A investida dos ladrões foi em vão, no entanto, o jovem estava ferido com alguns cortes e machucados pelo corpo, o sangue jorrava no salão da Taverna.

Amigos de Ulrich o levam para um dos quartos da Taverna e Amelia fica cuidando dele. Enquanto estava limpando os ferimentos de Ulrich, ele acorda e a primeira visão que tem é dela ajudando a sanar sua fraqueza temporária. Com um belo sorriso a moça o traz para vida novamente após sofrer alguns infortúnios em defesa da Taverna.

Passado alguns dias após o incidente na Taverna, já recuperado do susto, Ulrich fica a repousar na beleza do horizonte que é o cenário principal de sua morada. E pensa no que vai fazer para sua amada. Ele, finalmente, tem por quem lutar. Amelia era a pessoa que buscava, mas não enxergava. Estava cego pelas atitudes vividas e perdeu muitos momentos ao lado dela. Amelia sabia que ele fazia o seu coração palpitar cada vez mais, no entanto, não tinha certeza que ele sentisse o mesmo.

Era inverno, todo o cenário colorido foi apagado pelo branco da neve. Não era possível imaginar que a beleza que vista do alto da colina tinha outro tom, mesmo assim, ganhava outro sentimento. Ulrich convida sua amiga para ir até sua casa. Prontamente, assim o faz. Mal esperava que aquele dia fosse o mais importante para a vida de ambos e o significado do que aconteceria.

- Amelia, tem uma coisa que gostaria de falar-te e sempre fugia do assunto por não ter coragem de dizer, mas hoje eu tenho certeza e confessarei tudo o que quero.

Ao ouvir cada palavra dita, e ver a reação do jovem, Amelia não suporta toda a carga emocional que paira sobre o momento. Fica sem acreditar no que ouvia, mas era o que desejava escutar. Por muito tempo esperou e, enfim, à hora chegou e não sabia como resistir. Completamente feliz e ansiosa não teve reação alguma. Um breve silêncio tomou conta. Ulrich não tinha mais uma palavra para dizer, mesmo assim pergunta.

- Então, o que você pode me dizer? Amelia nada falava, a emoção foi tremenda que silenciou todas as suas palavras. Este pode ser o momento que muitos esperam ter na vida e ela estava tendo o dela. Continuando o silêncio, o moço não sustentou a pressão que sentia e apagou o vazio do momento com um longo e esperado beijo. Tudo o que preocupava foi esquecido nos minutos que prosseguia o ato. Amelia não acreditava que finalmente o dia chegou, as suas aflições acabaram com aquele beijo e só imaginava o que poderia surgir de bom para a vida dos dois.

É bem verdade que a vida proporciona alegrias e tristezas, não podemos premeditar nada, pois as ações acontecem quando devem acontecer e ultrapassar os desejos pela afobação gera constrangimentos e leva o caos para uma vida inteira. O que tinha de ser feito, aconteceu, o que vem logo mais é um mistério. E agora? Viver seria uma boa resposta, muito embora, este viver esconde situações que ninguém imagina passar. Mal sabia os dois que algo estava por vir. As surpresas são bem-vindas desde que sejam agradáveis e não sendo torna-se uma catástrofe na vida de quem aceitou.

A Taverna das Ilustres Memórias - Parte III

No dia seguinte Amelia decide visitá-lo mais uma vez, era um dia tempestuoso, as águas que caiam do céu impediam de ela ir ao encontro do moço, mas não desiste e vai assim mesmo. Vai subindo a colina encharcada e, devido à chuva, tem muita dificuldade de chegar até a choupana, vai segurando entre as árvores que servem de guia até chegar à morada de Ulrich. Molhada, suja, despenteada, com frio, finalmente, chega até a casa dele. Surpresa! Ele não está. Sem qualquer explicação ela continua lá na tentativa de esperar por ele. A chuva continua a cair sobre aquele vilarejo e a paisagem que antes era maravilhoso por suas cores e formas agora tem um tom melancólico e escuro. Ela continua esperando pelo seu querido amigo e nada de ele aparecer, esperançosa continua no mesmo local. E continua chovendo!

É chegada a tarde e nada de Ulrich, preocupada Amelia decide ir embora, e assim o faz. Todos os dias a jovem foi até o alto da colina para encontrar o seu amigo e ele não chega. Por muito tempo ela fez o mesmo trajeto. Vai até a Taberna, onde ele costumava ir, para saber se ele disse algo a respeito de sua saída do vilarejo.

- Taberneiro, por favor, tu conheces Ulrich e gostaria de saber se tens alguma notícia dele, todos os dias subo até o alto da colina e encontro sua casa fechada. Ele não me disse nada, sabes de alguma coisa?

E ele responde.

- Ele apenas disse que irá passar alguns dias fora e disse, também, que tem alguém que ele deve lutar.

Amelia sai da Taberna frustrada e um pouco esperançosa. No período que passou a ir a colina começou a nutrir um sentimento incomum para ela. Não sabia que nome poderia dar, sentia e com muito fervor.

Passou-se muito tempo até a volta de seu amigo e ela estava na porta a sua espera. Ele estava diferente, uma aparência mais serena, mais segura e mais jovial. Ela não percebe que ele chegara de sua longa jornada. Meio que de surpresa ele chama por ela. Amelia salta em seus braços e felicita sua volta. Eles permanecem em um longo e caloroso abraço como se os dois já possuíssem uma vida juntos. E ficaram a contemplar aquele fim de tarde que era um dos mais belos. Após toda a recepção Ulrich leva a moça para casa.

Amanhece e logo cedo Amelia sobe a colina para encontrá-lo mais uma vez e estava ele como se estivesse esperando por ela, sorridente. Ao chegar lá, quase que sem fôlego, Ulrich entrega uma flor para ela e a única coisa que poderia fazer naquele instante era sorrir. A manhã era uma das mais lindas em todos os tempos. Não havia semelhante cor do céu ou do lago, nem o campo era tão verde, tudo favorecia para ser um dia inesquecível. E foi!

Amélia não esperava por nada apenas queria estar com a pessoa que nutri suas esperanças de ter uma vida feliz, mas não sabia se era possível, achava impossível de isso acontecer, acreditava que ele foi à busca de sua amada e ela só queria estar perto dele mais uma vez antes que ele se fosse novamente. Ulrich foi contando o que se passou durante sua ausência.

- Amélia depois daquela visita que me fez e me questionou sobre a minha resposta eu me dei conta que deveria fazer alguma coisa para a minha vida. Antes de ir passei na Taberna, tomei um pouco de hidromel, falei com o taberneiro e fui embora. Durante esse um ano que estive fora percebi que tinha alguém por quem lutar e encontrei. Conheci muitas pessoas, foi muito bom para mim este tempo fora e foi o suficiente para mostrar por quem realmente lutar.

A jovem apenas ouvia o que ele tinha a dizer sobre suas experiências fora do vilarejo, ela sem muito que dizer exprimiu o que fazia durante este tempo sem ele estar presente, imaginando ela que não teria de enfrentar a pior notícia, ele só queria ver as intenções dela a fim de ter certeza do que ele já tinha em mente.

- Ulrich, meu amigo, no dia em que soube que havia viajado eu estava aqui na porta de sua casa, molhada devido à forte chuva que caia e passei a fazer isso quase que todos os dias na esperança que você voltasse, conversei com o taberneiro e ele me falou que você tinha ido e disse que foi lutar por alguém, fico feliz que tenha feito isso. E como já sabe, quando você voltou estava aqui à sua espera. E acredito que a pessoa que você escolheu será muito feliz ao seu lado.

O rapaz acompanhou cada movimento dos olhares e da maneira que Amélia falava e percebeu que sua ida para o mundo não tinha sido em vão. Meio magoada e tristonha volta para casa. No outro dia ao entardecer Ulrich vai até a casa dela e convida para ir a Taverna. Estava cheio o lugar, muitos viajantes e alguns moradores estavam lá. Escolheram uma mesa mais reservada e conversaram sobre muitas coisas, mas a intenção de Ulrich era ter certeza de seus sentimentos pela moça e a cada momento sabia que ele tinha por quem lutar.

A Taverna das Ilustres Memórias - Parte II

Diante do lago Ulrich observa cada instante daquela noite. Observa as nuvens, as estrelas, a sua própria existência. Não há nada mais trágico do que viver sozinho. Independente do que possa acontecer ter pessoas para entender suas fraquezas e confessar seus temores são muito mais relaxantes. Pensando assim, ele segue para sua casa que fica no alto da colina, um lugar iluminado pela lua, onde o sol toca primeiro quando nasce, onde os pássaros fazem suas primeiras moradas, um lugar feliz, rico de beleza e o seu colorido contagia até o mais obscuro coração.

Enquanto que na casa de Amelia, as perturbações dos pensamentos sobre o seu amigo perpassam e não consegue entender o quão seco foi à resposta. Logo, decidi visitá-lo pela manhã. Amanheceu. A moça prepara algo para levar até o seu conterrâneo. Com o seu longo vestido preto ela sobe a colina levando alegria e boas risadas. Sem perceber a presença de alguém chegar, Ulrich estava cortando lenha para aquecer sua noite quando eis que bate à sua porta.

- Bom dia! Vim trazer isto para você.

Sorridente entrega o que levou; o anfitrião estava meio atordoado com a visita matinal. Ulrich conduz a sua visita para o outro lado de sua casa. Aquela manhã começou a irradiar mais felicidade. Mesmo que não haja nada o que dizer a paisagem, que é proporcionada pela natureza do lugar, fala mais alto do que qualquer palavra que possa ser dita.

Palavras que machucam ou alegram quando desejam, não entendemos os motivos pelos quais devemos ter um respaldo para não cair neste jogo. Apesar de toda a atenção que se possam ter, elas nos atrai para um caminho que muitas vezes não tem fim, dependendo da situação há dois rumos: um bom e outro ruim. Não escolhemos apenas torcemos para que tudo saia como se espera que seja, caso contrário, o afastamento é o mais provável.

Nem todos os pensamentos devem ser seguidos e ainda assim, continuar no mesmo barco por muito tempo irá afogar qualquer chance de volta para a vida. E sem as palavras necessárias Amelia questiona sem saber como dar início.

- Ulrich, eu não compreendi bem o que você disse ontem sobre não ter por quem lutar. Foi tão seco o que dissestes que acredito que não falas a verdade. O que há contigo? Não quero forçá-lo a me dizer o que não desejas, mas quero poder te ajudar. É só isso! Não quero aborrecer-te, meu amigo!

E respondeu ele.

- Amelia, no momento não tenho por quem lutar, estou sozinho neste mundo. Já enfrentei muitas lutas e esta não consigo vencer, gostaria que fosse mais fácil ou mais simples de seguir e hoje não tenho qualquer perspectiva de vida. É apenas isso!

Um pouco aflita devido às palavras de seu nobre amigo a jovem moça segue com outros assuntos para não atrapalhar o momento mágico de alegria que estava aquele dia. Com receio de fazer novas perguntas ela decide ir embora para deixá-lo sozinho com os seus pensamentos e não imagina o quanto o seu amigo precisa dela.

Aquela manhã tinha tudo para ser mais agradável possível, no entanto, a doce jovem não correspondeu para que tudo saísse como pudesse ser. Ulrich passara o dia tentando esquecer o ultraje que sua amiga fez, mas ele não vê com um insulto diante de muitas coisas que já passou na vida e, por ainda ser tão jovem, as decepções o perseguem para onde quer que vá. Anoitece e Amelia não sabe o que fazer diante da perturbação que tem o seu coração. De alguma maneira deseja ajudar o seu amigo, porém não têm meios nem sabe o que ele tem ou esconde. Ela persiste na sua agonia de que Ulrich esconde algo dela e crê que irá descobrir.

O rapaz é cheio de mistérios estes que ele teme por toda a vida. Mas a pergunta ainda não foi respondida, será que há alguém por quem lutar? Independente de que seja ele, realmente existe? As dúvidas vão e vem e apenas memórias tomam conta do que resta de pensamento e o que resta de sentimento dentro do coração. Talvez não seja ele quem esconde algo, quem sabe ela, ambos não têm certeza, o que sabem é que um tenta ajudar o outro.

A Taverna das Ilustres Memórias

Muito do que se pode ouvir está longe do nosso alcance por uma infinidade de razões que não podemos compreender. E estando assim, alheio a quaisquer desventuras que ocorra, nada inclui na vida de quem deseja recriar. Seguindo para uma Taverna longe de seus princípios básicos Ulrich convida sua amiga Amelia para uma conversar e discutir o que realmente a vida tem a mostrar; ainda.

E chegando ao local sombrio, por sua própria escuridão de esperança, eles seguiram para uma mesa. Era frio e congelante aquele fim de tarde, os pássaros já procuravam o seu ninho, as folhas ainda caíam por sua natureza, era setembro, tempo de mudanças, e muitos que buscavam boas risadas e saber da vida alheia estavam nesta Taverna escura e cheia de amargura por quem costumava visitar ou simplesmente provar do melhor hidromel da região. Muitos já foram vistos ali, cavaleiros do alto escalão de grandes reinos próximos a Avalon, príncipes disfarçados, monges que após grande período de reclusão batia o seu ponto para refrescar suas mentes e muitos outros lordes, nobres e simples pessoas que tentavam encontrar uma felicidade na vida e às vezes apareciam para afogar suas mágoas.

Ao longo dos tempos a Taverna sobreviveu aos perigos das mudanças de lideranças que queriam expandir suas fronteiras, Avalon já não existe mais, no entanto, preserva suas características de um vilarejo tranqüilo e amoroso de grandes pessoas e por ser um local para as lembranças.

Ulrich chama a taberneira e pede a grande especialidade da casa: o famoso hidromel. Amelia, ainda atormentada pela carga emocional que possui o local, confessa o seu medo e aflição não só por estar ali como pela vida que tem.

- Olhe! Veja aqueles lordes que está logo ali naquela mesa, o que te faz pensar meu caro amigo que eles estão felizes ou comemorando algo de bom de acordo com suas esbravações sonoras? Sem qualquer receio em responder a jovem moça Ulrich responde.

- Não vês que eles apenas sorriem pelo o que estão consumindo, não há nada ali que mereça destaque de ser um modelo para você. Pobres homens! Enquanto estão aqui para tentar chamar atenção de quem freqüenta como será que estão seus pensamentos agora? O que será que está acontecendo na sua vida para fazer tal coisa? Será que existe alguém por quem lutar?

Aquele fim de tarde renderia muito daqueles dois jovens que provavam da bebida e questionavam as atitudes dos outros. Estava bastante frio, o sol já não aquecia como antes, era fácil congelar-se por um propósito inusitado. Amélia, inconformada, inquietou-se e esbravejou para o seu amigo.

- Você meu amigo, tens por quem lutar? Intrigado, ele responde.

- Não!

Um breve silêncio toma conta da mesa. O canto dos pássaros desapareceu com a chegada da noite. Acabou o hidromel. A casa já começa a encher com os viajantes que passam a noite no vilarejo. Os dois jovens vão embora e Amelia fica impressionada com o lugar que nunca havia ido; gostou! Pela gentileza de um bom cavalheiro, Ulrich leva sua amiga para casa. Ao longo do caminho permaneceram calados, não retrucam nada além do cumprimento mais que formal.

- Bom, já está em casa. Boa noite!

E ele vai embora. Amelia adentra a sua casa. Seguindo para a sua, ele pára em frente ao imenso lago iluminado pela lua. A noite ainda é mais fria. Afinal, o questionamento ainda é o mesmo. Há por quem lutar? Talvez sim, talvez não. Para quem devo lutar nesta vida, será que existe alguém que mereça todo sacrifício? As dificuldades que possa haver durante o caminho é seguida em vão apenas para uma conquista pessoal e não para compartilhar todos os momentos.

As palavras que choram

Era noite e estava fazendo algumas coisas quando alguém me falou: as suas palavras choram. Foi fácil entender a princípio e voltei para as minhas atividades normalmente, no entanto, aquelas palavras permaneceram nos meus pensamentos e me dei conta com uma caneta e um papel em branco nas mãos e uma idéia a ser escrita.

Pensei em muitas coisas e confesso que não cheguei a uma conclusão. “As minhas palavras choram”, esta frase não sai da minha mente e me faz viajar a quase um ano e recordei do que acontecia naquele tempo. Outras frases perpassavam a minha vida de outra maneira. Pare de existir, comece a viver. Eu sempre carrego esta inscrição e, de certo modo, fez muito efeito e teve uma grande sonoridade. Foi o período que, quase tudo, ocorria pela primeira vez e acreditava que havia começado a viver. Pude abrir os olhos muito tempo depois e hoje sei que vivo, não mais da forma como era. Antes as palavras não tinham som, não havia emoção alguma, pois não queria perder um minuto relatando as minhas aventuras, queria mais era explorar cada momento sem deixar espaço para o marasmo e a tristeza.

Certo dia, o mundo desabou sobre as minhas expectativas e foi aí que me tornei mortal. Um simples e reles mortal. Não admiti o que acontecia e dei as costas para o que me causava dor. Fui me interessar em outros assunto para esquecer de mim. Até que deu certo por um longo período e tudo que guardei voltou e não pude evitar. Apesar de tudo, está às claras ou quase tudo. Ainda assim, gostaria de saber se o coração realmente engana. Tenho esta dúvida a partir de uma conversa que tive e esta leve sensação chamou a minha atenção. Não sei ao certo se isto é verdadeiro, o que sei é que o passado virou lembrança e já foi deixado de lado mais uma vez.

Hoje as palavras tomam conta dos meus sentimentos, pois elas transbordam o que não consigo e não posso dizer. Cada detalhe escrito é a representação das lágrimas que não derramo. E as manchas no papel mostram como foi e como está o meu coração: marcado de uma maneira que não gostaria que estivesse.

Irei sanar todas essas loucuras, por enquanto, busco na beleza das pequenas situações a minha felicidade. E tenho tido. Na verdade, muitos fatores têm contribuído para tal. Alegro-me por estar acontecendo e espero que as futuras palavras sejam frutos dos grandes sorrisos que irei ter, não mais chorarão, pois será um manancial de alegria.

O retorno das Ilustres Memórias

Sinto-me diferente nesta noite morna e apenas o ruído da casa ao lado a incomodar. À noite poderia ser igual a todas as outras. Sono. Descanso. Sonho. Poderia ser assim, mas à vontade de dormir não chegou. Então, peguei antigos manuscritos e comecei a folhear cada página escrita. Ao ler cada linha a minha mente voltou quatro anos atrás e fui revivendo cada momento de angústia e de alegria naquele período. Fui percebendo os detalhes na mudança das caligrafias. Os manuscritos pareciam mais um confissionário e a qualquer momento poderia retornar a ele e comprovar o que estava dizendo. Foram muitas alegrias, muitas explicações, várias teorias loucas e muitos amigos. Estes guardo comigo para sempre e hoje posso lhes mostrar os nossos devaneios para matar a monotonia que vivíamos naquela época. No entanto, serviu para nos unir e sermos quem somos atualmente: amigos.

Nossa! Quantas palavras estranhas, quantos sentidos loucos, quanta imaginação. Era desta maneira que progredíamos sem fazer muito esforço. Houve tempos que cheguei com o mais belo sorriso estampado no rosto, houve momentos – poucos e duradouros – que não queria falar e estava chateada com o mundo, ainda assim, superei tudo isso e vivo tranquilamente. Talvez, fosse um preparo para fortes emoções que só no futuro/presente tenho vivido e saído da turbulência da melhor maneira. Sem marcas ou qualquer ferimento, de cabeça erguida.

Ao reler os manuscritos o meu semblante era de uma criança quando ganha algo, feliz. Lembrando das cenas que originaram cada palavra escrita e tenho o prazer de mostrá-las e sorrir delas sem esperar que termine a frase. Não sei se vivi da melhor maneira possível, mas creio que foi o suficiente, nada vai me fazer esquecer e o mais legal de tudo é reencontrar as mesmas peças desse tabuleiro e jogar com outras regras apenas seguindo o coração. E bem tenho certeza que o remorso instantâneo aparecerá e, em virtude da nossa vida atualmente, passa-se uma borracha, não para esquecê-las, apenas para apaziguar o sentimento sofrido.

De todas as coisas boas existentes no mundo, nada com a alegria para atrair uma infinidade de boas ações. E antes de ler os manuscritos o meu coração estava em trevas o que já não posso afirmar da mesma forma, vive na saudade junto com a felicidade.